O pedido chega no planejamento do ano: atender a mesma base de clientes com menos gente, ou crescer a base sem crescer o time. Em seguida, alguém propõe as respostas de sempre. Um chatbot na entrada, uma central de ajuda nova, uma meta de TMA mais apertada. Seis meses depois, o volume de tickets está parecido, o CSAT caiu e o chatbot virou um motivo de contato a mais (“não consigo falar com uma pessoa”).
Para reduzir o volume de tickets de verdade, é preciso que o cliente deixe de ter motivo para entrar em contato. E isso só acontece fora do atendimento: no produto, na fatura, na comunicação de prazo, na regra de renovação. O trabalho do gestor de CX é mostrar a essas áreas, com evidência, o que está gerando contato e quanto isso custa.
Desviar o contato não é eliminar o contato #
Quase tudo que se vende como redução de volume é, na verdade, desvio. O chatbot, a URA e o artigo da central de ajuda tiram o contato da fila do agente, mas o cliente continua tendo um problema. Às vezes isso é ótimo: quem só quer a segunda via do boleto prefere resolver sozinho em trinta segundos. Às vezes o contato só muda de lugar e volta pior, depois de três tentativas frustradas no autoatendimento.
A diferença aparece quando se pergunta o motivo. Se o cliente procura a segunda via porque o boleto não chegou por e-mail, o autoatendimento resolve o sintoma. Consertar o envio elimina o contato. Os dois têm lugar, mas só um diminui o número de clientes com problema.
Por isso o ponto de partida é o mapa de motivos de contato, montado a partir das conversas e não das tags do helpdesk. Como montar esse mapa foi assunto de motivos de contato: o que são e como mapear. Daqui em diante, vamos supor que ele existe e que cada motivo tem uma definição que não muda de um mês para o outro.
Separe o que é evitável #
Nem todo contato deveria desaparecer. O cliente que quer mudar de plano, contratar um adicional ou negociar uma dívida está fazendo algo que interessa à empresa. Tratar esses contatos como custo a cortar é o caminho mais curto para perder receita.
Antes de priorizar qualquer coisa, passe cada motivo por uma pergunta: se tudo tivesse funcionado como deveria, esse cliente precisaria ter falado com a gente? A resposta costuma cair em quatro grupos (os exemplos são hipotéticos):
| Tipo | Exemplo | O que elimina o contato | Quem age |
|---|---|---|---|
| Falha | Cobrança em duplicidade na renovação | Corrigir a regra ou o sistema | Produto, faturamento |
| Comunicação | “Meu pedido diz entregue, mas não chegou nada” | Reescrever a mensagem na origem | Logística, marketing |
| Autoatendimento que falta | Segunda via de boleto, status do pedido | Deixar o cliente resolver sem pedir | Produto, digital |
| Contato legítimo | Mudança de plano, renegociação | Nada. Esse contato deve ser bem atendido | Atendimento, vendas |
Os grupos de falha e comunicação são onde mora a redução de verdade. Eles também são os mais difíceis de resolver pelo atendimento, porque o dono do problema está em outra área. O de autoatendimento fica no meio: dá para desviar rápido, mas vale perguntar por que o cliente precisou procurar a informação.
Tem um quinto tipo que atravessa todos os outros: o recontato. O cliente que volta porque o primeiro atendimento não resolveu não trouxe um motivo novo, trouxe o mesmo motivo duas vezes. Esse é o único volume que o próprio atendimento consegue eliminar sozinho, com procedimento, treinamento e autonomia para resolver na primeira conversa.
Priorize pelo custo, não só pelo volume #
O primeiro impulso é atacar o motivo do topo do ranking. Às vezes está certo, mas o volume sozinho esconde muita coisa. Um motivo com mil tickets resolvidos em uma resposta pode custar menos do que um com trezentos que reabrem, passam por três filas e terminam com o cliente irritado.
Uma conta simples já ajuda a ordenar a lista. Para cada motivo evitável, olhe:
- Volume no período, contando o recontato dentro do motivo, e não como motivo novo.
- Esforço por ticket: tempo de resolução, número de interações, transferências entre times.
- Efeito no cliente: CSAT dos tickets desse motivo comparado com a média, reabertura, pedidos de cancelamento que aparecem nas mesmas conversas.
- Esforço para corrigir, que você não sabe sozinho e precisa perguntar ao dono.
O resultado não precisa ser uma fórmula exata. Precisa ser uma lista curta, de três ou quatro motivos, que você consegue defender numa reunião com produto. Se quiser entender quais indicadores cruzar com cada motivo, o post sobre indicadores de atendimento trata disso.
Leve conversas, não gráficos #
O gráfico de barras com os motivos que mais cresceram convence a diretoria de CX. Raramente convence quem precisa mudar alguma coisa. O gerente de produto tem o próprio backlog, com pedidos de clientes grandes e metas do trimestre, e um “aumentaram as reclamações de nota fiscal” não compete com nada disso.
O que muda a conversa é ler o cliente. Junte quinze ou vinte tickets do motivo, escolhidos ao longo do período e não só os mais dramáticos, e leve para a reunião junto com três números: quantos tickets por mês, quanto tempo cada um consome e o que acontece com a satisfação deles. Quando o dono lê a mesma reclamação escrita de quinze jeitos diferentes, a discussão sai de “será que é tão grave?” e vai para “como a gente corrige?”.
Combine também o que vai ser medido depois. A correção que ninguém acompanha costuma ser esquecida na terceira semana, e o motivo volta a crescer sem que ninguém ligue os pontos.
Meça a queda do jeito certo #
A parte mais fácil de errar é a medição. O volume de tickets total sobe e desce por mil razões: campanha de vendas, sazonalidade, um incidente que gerou um pico de contatos. Se você comparar o total antes e depois da correção, vai achar que funcionou quando não funcionou, e o contrário também.
Algumas regras evitam a maior parte dos enganos:
- Meça o motivo, não o total. A correção da cobrança duplicada tem que aparecer no motivo “cobrança em duplicidade”, não no volume geral.
- Normalize pela base. Se a base de clientes cresceu 20%, manter o mesmo número de tickets é uma queda. Contatos por mil clientes ativos, ou por mil pedidos, comparam melhor do que o número bruto.
- Não mexa na definição durante a medição. Se o motivo for dividido ou renomeado no meio do caminho, a comparação perde o sentido. Juntar e dividir motivos é normal, mas vale daqui para frente.
- Olhe para os vizinhos. Às vezes o contato não some, só troca de nome. O cliente que parou de reclamar da cobrança duplicada pode estar abrindo ticket sobre estorno. Confira os motivos próximos e a sobra de “outros”.
- Dê tempo. Uma correção de produto leva semanas para chegar a todos os clientes, e quem já tinha o problema ainda pode procurar o atendimento depois dela.
E vale manter um olho na satisfação. Um volume que cai porque o cliente desistiu de pedir ajuda não é redução, é detrator silencioso.
Onde o Echo entra #
O Módulo Echo, da plataforma Kairos, faz a parte de leitura desse trabalho. Ele se conecta ao helpdesk, analisa os atendimentos finalizados e descobre os motivos de contato no histórico da própria empresa, com o nome de tópicos. Cada tópico chega como proposta, com volume e tickets de exemplo, e só entra depois que alguém do time aprova.
Algumas partes do que este post descreve ficam mais fáceis com ele:
- A definição não escorrega. Os tickets de referência aprovados é que definem o tópico. Editar o nome ou a descrição não muda a classificação, e reajustar um tópico vale para os tickets novos, sem reescrever o passado. É o que permite comparar antes e depois.
- Cada número abre os tickets. As quinze conversas para levar ao dono do problema estão a um clique do volume do tópico, e a busca por significado ajuda a achar casos parecidos.
- Satisfação no mesmo lugar. O CSAT recebido e a satisfação inferida aparecem como medidas separadas, com filtros por período, fonte e canal e comparação com o período anterior, o que ajuda a ver se a queda de volume veio com cliente mais satisfeito.
- A sobra vira proposta. Os tickets sem tópico alimentam propostas de tópicos novos, então o contato que trocou de nome depois de uma correção tende a aparecer.
O Kai, o assistente da plataforma, responde em linguagem natural sobre essas leituras: como os tópicos se distribuíram entre dois períodos, com os tickets que sustentam a resposta. Ele sugere ações com motivo e evidência, mas não executa nada.
E os limites, para não haver surpresa: o Echo não reduz volume sozinho, não tem chatbot e não classifica ticket aberto em tempo real. Ele mostra o que gera contato e prova com as conversas; quem corrige a fatura ou o fluxo do aplicativo continua sendo a área dona. As conversas passam por anonimização antes da análise, e os detalhes estão aqui.
Um exercício para este mês #
Pegue os dez maiores motivos de contato do último trimestre, com o recontato contado dentro de cada um. Ao lado de cada motivo, escreva o tipo (falha, comunicação, autoatendimento ou legítimo) e o nome de uma pessoa, não de uma área, que poderia eliminá-lo.
Escolha um só, de preferência evitável e com dono claro. Separe vinte conversas, anote o volume mensal e o CSAT desse motivo e marque uma conversa de meia hora com essa pessoa. Volte ao mesmo número sessenta dias depois da correção, com a mesma definição.
Se a primeira redução for pequena, tudo bem. O que ela prova é que o atendimento consegue apontar a causa com evidência, e é isso que faz a segunda reunião acontecer. Para entender o que mais os tickets contam além do motivo, continue por voz do cliente nos tickets.